Era uma vez… (e assim começam todas as histórias) um médico que todos os dias se deslocava para o Porto, onde preparava a sua especialização em Psiquiatria Infantil no Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil. Durante a viagem da Póvoa de Varzim à capital do Norte, não saíam da sua mente os problemas com que, diariamente, se confrontava ao analisar os casos de crianças deficientes e o drama das suas famílias.

O Dr. Albino Ramos não podia deixar de se inquietar com o futuro dessas crianças, isoladas no seio da sociedade, fechadas no seu mundo imutável, rejeitadas por familiares e vizinhos, vivendo a angústia de carregar esse peso sozinho. Algumas vezes, para não dizer frequentemente, o médico surgia como o último recurso de saída dessa situação, como espaço para extravasar essa angústia, como alvo para uma agressividade pressentida pela acumulação do sofrimento sem resposta.

Frequentes vezes, ao consultar crianças com deficiência dos concelhos da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, pensava na angústia dos pais, desejando encontrar um meio de suavizar a sua existência, de os ajudar a suportar a dor que os deprimia.

Em princípios de 1976, dialogou sobre o assunto com o Dr. Camilo Sá Couto Santos que, na altura, estava a estagiar nesses Serviços. Residente também na Póvoa de Varzim, o colega comungou das suas aspirações, compreendeu o seu desejo e prontificou-se a colaborar na criação de uma Associação que prestasse apoio às crianças deficientes da cidade. Posto ao corrente dos seus anseios, o Dr. Ramiro Geraldes da Costa Araújo, também residente na Póvoa e a trabalhar no Hospital Magalhães de Lemos, de imediato aderiu ao grupo, dando a entender que o melhor começo seria iniciar uma campanha de sensibilização não só aos pais interessados, mas à população do concelho.

Uma vez que o Dr. Rui Abrunhosa, médico no Hospital de S. João, no serviço de Anatomia e fundador do MADI (Movimento de Apoio aos Diminuídos Intelectuais) do Porto, vinha exercendo um excelente trabalho nessa Instituição, acharam que seria a pessoa indicada para sensibilizar os pais no sentido de se juntarem esforços para a criação de uma Associação idêntica.

Conhecedor do projecto, de imediato anuiu com entusiasmo prontificando-se a ajudá-los no que fosse necessário. Então, o Dr. Albino Ramos contactou o Delegado Escolar da Póvoa de Varzim, Prof. Armindo Bravo, esclarecendo-o do que pretendia realizar e solicitando a sua colaboração para iniciar a campanha de sensibilização junto dos professores. A primeira reunião teve lugar a 6 de Novembro de 1976, no Salão Nobre dos Bombeiro Voluntários. Outras se seguiram na Escola Secundária Rocha Peixoto, Escola nº2 da sede (Sininhos) e no Clube Naval.

Apresentada a intenção de fundarem uma Associação de Apoio ao Deficiente Intelectual, foram desenvolvidos outros temas, procurando realçar a necessidade de restituir a dignidade e o amor-próprio aos pais angustiados com a existência de um filho deficiente. Foi-lhes garantido que a Associação seria dirigida, na sua maioria, por elementos que tivessem filhos nessas circunstâncias, uma vez que só eles viviam e sentiam na pele essa vivência, o que seria à partida uma garantida de continuidade, pois ninguém desiste de fazer o melhor pelos seus filhos.

A assistência ouviu, atentamente, a mensagem transmitida e, como prova de que tinha sido compreendida e aceite, respondendo aos anseios que muitos acalentavam mas não sabiam como dar corpo, apareceram alguns voluntários para apoiarem esse projecto. Formou-se, então, um grupo encarregado de procurar dar vida a esse ideal, marcando uma reunião para estabelecer linhas gerais, tendo em vista a criação da Associação.

Assim nasceu MAPADI (Movimento de Apoio de Pais e Amigos ao Diminuído Intelectual), Instituição particular de Solidariedade Social, fundada em 6 de Novembro de 1976. A escritura foi feita no dia 25 de Maio de 1977, no Cartório Notarial da Póvoa de Varzim e publicada no Diário da República de 13/6/77, III Série, nº 160. O seu fim destina-se a dar apoio a crianças com deficiência mental do nosso Poveiro.